Sem estabelecer comparações entre realidades distintas, a tragédia ocorrida no Himalaia chama atenção para um desafio que também faz parte do planejamento de cidades serranas: conhecer o território e utilizar engenharia, tecnologia e prevenção para reduzir vulnerabilidades. A catástrofe registrada na região montanhosa da fronteira entre Nepal e Tibete, nesta última semana, voltou a colocar no centro das discussões internacionais a vulnerabilidade de comunidades e infraestruturas instaladas em territórios de relevo extremo. O desastre foi desencadeado pelo colapso de parte de uma geleira no Himalaia, provocando uma avalanche de gelo e rochas, deslizamentos e uma violenta inundação repentina que atingiu áreas habitadas e destruiu estruturas ao longo dos vales.
As dimensões, as causas e as características geológicas e climáticas do episódio não permitem qualquer comparação direta com a realidade brasileira — muito menos com Campos do Jordão. A tragédia, entretanto, provoca uma reflexão importante para qualquer cidade localizada em região montanhosa: quanto mais complexo é o território, maior deve ser a presença do conhecimento técnico no planejamento da ocupação e na prevenção de riscos.
Campos do Jordão está inserida na Serra da Mantiqueira e possui uma configuração urbana marcada por encostas, grandes variações de altitude e áreas com diferentes graus de declividade. Essas características fazem com que decisões relacionadas à ocupação do solo, implantação de edificações, abertura de vias, drenagem e obras de contenção precisem considerar criteriosamente as condições geológicas e geotécnicas de cada local.
Para o presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Campos do Jordão (AEACJ), Eng. Rogério Balsante, acontecimentos extremos ocorridos em outras regiões do mundo também podem servir como ponto de reflexão sobre a importância da prevenção. “Não se trata de comparar Campos do Jordão com o Nepal, porque estamos falando de territórios, fenômenos naturais e escalas completamente diferentes. O que acontecimentos como esse nos mostram é que cidades inseridas em ambientes montanhosos precisam conhecer profundamente o seu território. É nesse ponto que engenharia, geologia, planejamento urbano e gestão pública precisam caminhar juntos”, destaca.
Investigações geotécnicas e sondagens permitem compreender as camadas do terreno e fornecer informações essenciais para o dimensionamento das fundações. Dependendo das características do local, projetos também podem exigir estudos específicos de estabilidade de encostas, sistemas de contenção, drenagem superficial e profunda, proteção contra erosões e outras intervenções.
A água merece atenção especial. Chuvas intensas e infiltrações podem alterar as condições do solo e contribuir para processos de instabilização. Por isso, sistemas adequados de captação e condução das águas pluviais são componentes importantes da segurança de ocupações em encostas.
Cortes realizados sem critérios técnicos, aterros inadequadamente executados, lançamento irregular de águas pluviais ou servidas e alterações na geometria natural do terreno também podem modificar as condições de estabilidade de uma encosta.
“Em uma cidade serrana, não podemos pensar apenas na edificação isoladamente. Precisamos compreender a relação daquela construção com o terreno, com a água, com a encosta, com as construções vizinhas e com toda a infraestrutura existente. Engenharia preventiva significa justamente estudar essas variáveis antes que elas se transformem em problemas”, afirma o presidente da AEACJ.
O Brasil possui normas específicas que auxiliam profissionais no desenvolvimento de projetos relacionados a terrenos, encostas e fundações. Uma das principais referências é a ABNT NBR 11682:2009 — Estabilidade de Encostas, que estabelece requisitos para estudo e controle da estabilidade de encostas naturais e de taludes resultantes de cortes e aterros, abrangendo também estudos, projetos, execução, controle e acompanhamento de obras de estabilização. Outra referência fundamental é a ABNT NBR 6122:2022 — Projeto e execução de fundações, que estabelece requisitos para projeto e execução das fundações das estruturas de engenharia civil.
Além das normas técnicas, a legislação brasileira estabelece restrições importantes para a ocupação do território. A Lei Federal nº 6.766/1979, que trata do parcelamento do solo urbano, determina, entre outras disposições, que não será permitido o parcelamento em terrenos com declividade igual ou superior a 30%, salvo quando atendidas exigências específicas das autoridades competentes. A legislação também estabelece restrições para terrenos cujas condições geológicas não aconselhem a edificação.
A discussão ganha caráter ainda mais atual em Campos do Jordão. Em abril de 2026, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) iniciou um novo trabalho de mapeamento das áreas de risco do município. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, os dados serão utilizados na elaboração do novo Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR).
O trabalho envolve o emprego de drones para obtenção de imagens aéreas das regiões consideradas mais vulneráveis, seguido de análises e vistorias técnicas. O objetivo é atualizar o conhecimento sobre áreas sujeitas a processos como deslizamentos e enchentes e fornecer informações para orientar políticas públicas e medidas preventivas.
A iniciativa é especialmente relevante diante do histórico do município. O PMRR anteriormente elaborado para Campos do Jordão registra que, desde os grandes escorregamentos ocorridos no ano 2000, o município passou a estruturar ações relacionadas à identificação dos riscos, intervenções preventivas, monitoramento de setores vulneráveis, planos preventivos de Defesa Civil e orientação da população.
Mais recentemente, a Defesa Civil municipal também anunciou a implantação de sirenes como instrumento de alerta em áreas que recebem atenção especial em razão do risco de deslizamentos. Essas iniciativas demonstram uma mudança importante de perspectiva: em vez de atuar somente depois de uma ocorrência, a gestão de riscos busca identificar antecipadamente as vulnerabilidades e agir preventivamente.
“A boa engenharia não aparece somente depois de uma emergência. Ela deve estar presente antes, no planejamento urbano, na análise do solo, no projeto, na drenagem, na contenção, na fiscalização e no monitoramento. Quanto mais conhecimento técnico incorporarmos às decisões sobre o território, maior será nossa capacidade de proteger pessoas, patrimônio e a própria cidade”, ressalta o Eng. Rogério Balsante.
Jornalista Fabricio Oliveira – MTB nº 57.421/SP




