As mudanças no regime de chuvas e a ocorrência de eventos meteorológicos intensos vêm impondo novos desafios às cidades brasileiras e tornando cada vez mais necessária a integração entre planejamento urbano, saneamento, drenagem, geotecnia e gestão de riscos. Em municípios com características geográficas particulares, como Campos do Jordão, localizado em uma região serrana, marcada por encostas, cursos d’água e ocupação urbana distribuída em diferentes condições de relevo, essa discussão assume importância ainda maior.
É nesse cenário que a engenharia se apresenta não apenas como instrumento para responder aos problemas depois que eles acontecem, mas principalmente como uma ferramenta para antecipar riscos, planejar intervenções e tornar as cidades mais resilientes.
A realidade recente do próprio município demonstra a importância desse debate. Em 19 de fevereiro de 2026, uma tempestade atingiu Campos do Jordão e provocou alagamentos e deslizamentos. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura, a Defesa Civil registrou 90 milímetros de chuva em menos de uma hora, volume equivalente a 90 litros de água por metro quadrado. A precipitação concentrada superou a capacidade de escoamento das galerias pluviais, enquanto o Ribeirão Capivari transbordou e importantes vias, como as avenidas Januário Miráglia e Frei Orestes Girardi, foram atingidas pelos alagamentos.
O episódio evidencia uma questão que vem sendo discutida em todo o país: a infraestrutura das cidades precisa estar preparada para condições climáticas que podem ser diferentes daquelas consideradas originalmente em seu planejamento. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) destaca que as mudanças climáticas alteram o regime de chuvas no Brasil e podem favorecer a ocorrência mais frequente de secas e inundações, com consequências diretas para a segurança hídrica.
O Ministério das Cidades, por sua vez, passou a tratar a adaptação climática como parte do planejamento urbano, defendendo que estados e municípios conheçam suas vulnerabilidades territoriais e incorporem essa perspectiva às políticas públicas.
Nesse processo, saneamento e gestão das águas pluviais precisam ser compreendidos de forma integrada. A drenagem urbana não se resume à instalação de galerias e tubulações destinadas a retirar rapidamente a água das ruas. O planejamento contemporâneo envolve conhecer as características das bacias hidrográficas, analisar o comportamento do solo, preservar áreas permeáveis, controlar a ocupação urbana, dimensionar adequadamente sistemas de drenagem e adotar soluções capazes de reter, infiltrar ou armazenar parte da água onde ela precipita.
A própria ANA estabeleceu, por meio da Norma de Referência nº 12/2025, diretrizes para os serviços públicos de drenagem e manejo de águas pluviais urbanas, destacando inclusive a utilização prioritária de soluções baseadas na natureza no planejamento dessas infraestruturas.
Campos do Jordão deu recentemente um passo importante nessa direção. Em julho de 2026, o município instituiu a Política Municipal de Cidade Esponja, estabelecida pela Lei Complementar nº 17. O conceito busca ampliar a capacidade do território urbano de absorver, armazenar e reutilizar as águas das chuvas, combinando infraestrutura convencional com soluções como jardins de chuva, pavimentos permeáveis, telhados verdes, reservatórios de detenção, parques lineares, sistemas de captação de água e estruturas de infiltração.
A proposta contribui para reduzir o escoamento superficial e, consequentemente, os impactos relacionados a alagamentos, erosões e outros riscos geotécnicos.
Outro componente fundamental é o conhecimento detalhado das áreas vulneráveis. Em abril deste ano, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas iniciou em Campos do Jordão a atualização do mapeamento das áreas de risco, trabalho que deverá subsidiar o novo Plano Municipal de Redução de Riscos. Segundo a Prefeitura, o levantamento contempla regiões sujeitas a enchentes e deslizamentos e utiliza, entre outros recursos, drones para obtenção de imagens das áreas consideradas mais vulneráveis. Estudos dessa natureza fornecem dados técnicos essenciais para orientar obras, políticas de ocupação territorial, medidas preventivas e decisões do poder público.
Para a Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Campos do Jordão (AEACJ), colocar esses assuntos em discussão também significa aproximar conhecimento técnico, poder público, profissionais e sociedade. “Quando discutimos mudanças climáticas, saneamento e gestão das chuvas, estamos falando diretamente sobre planejamento urbano, segurança e qualidade de vida. A engenharia tem uma contribuição fundamental nesse processo porque permite transformar conhecimento, dados e tecnologia em soluções capazes de preparar melhor nossas cidades para os desafios que já estamos enfrentando”, destaca o presidente da AEACJ, Eng. Rogério Balsante.*
A atuação profissional é ampla e multidisciplinar. Engenheiros civis, ambientais, sanitaristas, agrimensores e outros profissionais, ao lado de arquitetos, geólogos e especialistas de diferentes áreas, participam desde o levantamento e interpretação dos dados até a elaboração de projetos de drenagem, contenção de encostas, saneamento, infraestrutura, recuperação ambiental e planejamento territorial. Tecnologias de geoprocessamento, sensoriamento remoto, modelagem hidrológica e monitoramento também ampliam a capacidade de compreender o território e identificar pontos críticos antes que situações extremas resultem em maiores prejuízos.
A prevenção ganha relevância especial quando se considera a relação entre ocupação urbana e características naturais do território. Pesquisa divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), baseada justamente em estudos sobre os deslizamentos ocorridos em Campos do Jordão no ano 2000, identificou a influência das alterações provocadas pela ação humana em terrenos urbanos inclinados e encostas na ocorrência daqueles movimentos de massa. O Cemaden também já desenvolveu na cidade estudos combinando técnicas de geotecnia e geofísica para melhorar a compreensão dos processos de deslizamento e de seus possíveis impactos sobre edificações.
É diante desse cenário que Campos do Jordão recebe, no próximo sábado, 19 de setembro, o seminário “Campos do Jordão frente às Mudanças Climáticas: Saneamento e Gestão de Chuvas”, realizado pela AEACJ. O encontro cria um espaço para que profissionais, especialistas, gestores públicos e sociedade discutam caminhos para uma cidade mais preparada diante dos novos desafios ambientais e urbanos.
“Campos do Jordão possui características que exigem um olhar técnico permanente sobre o território. Promover esse debate é uma forma de contribuir para que prevenção e planejamento ocupem cada vez mais espaço nas decisões sobre o futuro da cidade. Não podemos tratar a engenharia apenas como resposta depois de um problema; precisamos utilizá-la para estudar cenários, reduzir vulnerabilidades e antecipar soluções”, afirma Balsante.
Por Fabricio Oliveira / Jornalista MTB nº 57.421/SP




